No consultório ou Lembrete

Novembro 16, 2009

Então morcego, resposta completa nível Fudest pra sua pergunta (só pra entrar no clima – ou não).

Eu gosto e não gosto dessa história de fincar os pés aqui. Existem coisas aqui das quais eu gosto, outras que dispenso, assim como coisas daí que eu não vivo sem.
Há muito pouco tempo eu parei de sentir a dor da falta. Explico: ver uma foto ou ler algo escrito já não traz lágrimas pra esses olhinhos, ao menos não imediatamente. Eu passei a ver esse tipo de coisa com um sorriso, porque fico feliz de ver e sentir que mesmo sem ter o contato de antes, a minha relação e o meu sentimento em relação à algumas pessoas estão intactos. Com você, com C. , com G., é a mesma coisa. Até com I., à quem eu ignoro achando graça e que ainda se crê muito minha amiga.
Eu abro um sorriso quando eu olho pra trás, especialmente pra 2007. Por tudo o que tive a chance (considere em francês, polissêmico de sorte) de viver. Não digo o mesmo pra 2008 e o primeiro semestre de 2009, você sabe que foi foda. É uma parte da minha vida que, seu eu pudesse, apagava. É uma comparação besta e clichê, mas é meio aquela história da transformação da borboleta. Antes de sair do Brasil, lagarta, aquela coisa gordinha que só come, aproveita tudo ao redor. Aí vem o casulo e as transformações, difíceis, incômodas. Eu diria que essa parte foi aquele semestrezinho antes de sair. Daí pra frente, é só saindo do casulo. Dor, dor, dor, dor e dor. Depois disso, é secar-se ao sol, aproveitando. Pra voar e recomeçar o ciclo. Pegou a metáfora?
Eu estou querendo me esticar ao sol agora, aproveitar, viver.
Não me vejo morando em São Paulo, pelo menos não agora. Eu não consigo pegar trânsito, estraga meu dia e me estressa de um jeito inimaginável. Sinto falta de um milhão de coisas que só São Paulo tem. Da nossa pizzaria de estimação, do delivery de absolutamente tudo, da combinação feira+caldo de cana, de tudo funcionando 24h, de andar de carro e saber onde eu estou de olhos fechados, de não encontrar alguém sempre que eu saio, da Brasil 2000, da Eldorado, da Nova, do cheiro de chuva. A lista é enorme, quase toda feita das pequenas coisas das quais eu e você gostamos tanto.
Em contrapartida, o trânsito da 23 e da Paulista e de todas as outras artérias da cidade em tempo quase integral me irrita só de pensar. Saber que não, eu não vou poder sair com a minha máquina porque é loucura (onde já se viu?!), assim como ter receio de que qualquer um pode ser um assaltante, batedor de carteira ou coisa pior me incomoda. Eu não me esqueci que São Paulo não é só Paulista e Jardins, tudo sempre muito funcional e bonito. E se for pra viver a minha cidade, eu quero que seja por inteiro.
É possível que eu volte. Talvez depois de acabar a faculdade, talvez na hora de educar os filhos (em português, ralando tudo o que nós ralamos), talvez pra envelhecer na praia. Em todos os casos, correndo atrás da minha felicidade. Estou tentando fazer isso aqui, agora, mas se de repente, não mais que de repente, ela decidir pegar um vôo e voltar pra o lugar de onde ela veio, eu sigo.

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Good old Buk’s book.

Outubro 24, 2009

let not

let not the people be your
foundation,
not the young girls,
not the old girls,
not the young men,
not the old men,
not those in-between,
not any of these,
let not the people be on your
foundation.

rather
build on sand
build on landfills,
build over cesspools,
build over graveyards,
build even over water,
but don’t build on the
people.

they are a bad bet,
the worst bet you can make.

build it elsewhere,
anywhere else,
anywhere
but on the people,
the headless, heartless
mass
mucking up the
centuries,
the days,
the nights,
the towns, the cities, the
nations,
the earth,
the stratosphere,
mucking up the light,
mucking up
all chance,
here,
totally mucking
it up
then
now
tomorrow.

anything,
compared to the people,
is a foundation worth
searching for.

anything.

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Vem chegando assim, devagarzinho.
Uma brisa aqui, outra acolá, e quem cuida dizendo
“e a blusa, não vai levar?”.

Arrepia, rodopia, alegria.
No rosto um sorriso, no pescoço um lenço, nas mãos, calor.
E o vento gelando meu rosto, até que eu sinta dor.
E vem chegando aquela calma, assim, devagarzinho.
Verde, amarelo, vermelho, sequinho.

Agosto 1, 2009

Parece que eu bodeei de coisas demais. Bodeei de televisão, bodeei de ler, bodeei de carro, bodeei de ouvir música o tempo todo (estou de volta à fase “cantarolar”). Bodeei disso e daquilo, e bodeei de bodear. Para os leigos, bodear é ficar de saco cheio. Quando eu penso “putz, bodeei”, me vejo na cama, com as maos na barriga, olhando pro teto branco. Assim, a perfeita imagem de tédio.
E eu tô bodeando de escrever também, porque no fundo eu nao tenho muito o que dizer.

fala por si só.

Acho que eu ainda não consegui deixar de pôr as coisas em caixas. Como se não bastasse guardar objetos do meu passado nelas, agora eu coloco pessoas (reparou na coisificação das mesmas, né?).
Parece que aquelas pessoas do meu passado que eu quero guardar longe dos olhos e perto do coração estão ali, numa caixinha. De vez em quando uma delas chuta, emite um som dizendo “Ei, estou aqui. Você ainda se lembra de mim?” e eu, sem saber o que lhe dizer, apenas passo reto, deixo pra depois, morrendo de medo que a consideração que essa pessoa tem por mim sublime, como naftalina num guarda-roupa.
Eu me sinto incapaz por isso. Eu vejo que o carinho da pessoa está ali, e sei que se eu estivesse no lugar dela, não dirigiria uma palavra sequer à mim, depois de três meses sem resposta alguma à um coração aberto.
Me olho no espelho, digo com a boca cheia que não valho a pena e, mesmo assim, passo reto pela caixa ali, arrumadinha, que continua emitindo som.

Deveria chamar isso de covardia?