Zut, alors.

Novembro 12, 2008

E lá estava eu. Uma boina para disfarçar o cabelo embaraçado, um casaco longo para disfarçar a falta de roupas boas, quentes e novas e um super óculos de sol para disfarçar as olheiras. Só me faltava o bom-humor pra esconder a decadência.
Era mais uma manha de outono e, meia hora depois de ter acordado, continuava no mesmo estado de transe dos que levantam horas mais cedo do que deveriam. Eu ainda tinha mais meia hora pra isso até que o último gole do meu café e a última tragada do meu cigarro me dissessem que eu deveria sair da cena que eu montava diariamente na minha cabeça e ir pra livraria onde eu trabalhava, passar o dia lendo e atendendo um ou outro cliente que procura pelo último best-seller.
Enquanto todos os outros cigarros do meu dia me davam aquela sensaçao de calma, o primeiro deles me levantava. A fumaça passando até o pulmao, a nicotina subindo até o cérebro e aquele restinho de cafeína me davam impulso suficiente pra parar de observar os transeuntes.
Se alguém me perguntasse onde era o meu lugar preferido na cidade, eu certamente diria “o comptoir do Chez Fait”. De segunda à sexta eu marcava ponto lá. O barista já me conhecia, e, por capricho, deixava o meu coupe granola separado e meu moccha branco quase pronto- a mistura só esperando pelo leite quente e pelo Chantilly.
Vez ou outra alguém sentava ao meu lado e me observava, exatamente como eu fazia com as pessoas da rua. Isso me irritava mais que tudo, e em cinco minutos eu já tinha pego minha bolsa, fechado a conta de €5.18 e me retirado, com o péssimo humor de quem tem a melhor hora do dia atrapalhada.
Na livraria eu me sentia totalmente à vontade. Tinha acesso ilimitado à todos os livros que eu quisesse, desde que nao deixasse rastros de leitura (orelhas, páginas com suor das maos ou qualquer outra brutalidade que pudesse ser cometida para com um livro); os clientes eram raros e o meu chefe quase nunca dava as caras. Ainda que o tédio aparecesse pelo menos uma vez ao dia, valia a pena. Me refugiei em Goethe, Dostoiévski, Sartre, Wilde e Nietzche.
Naqueles dois anos, eu vivi a minha melhor rotina. Quando o meu dinheiro de reserva acabou, voltei.
Já nao reconheço o caos, as pessoas e o tempo passa rápido demais.
Sinto falta de Paris.

pontos e vírgulas.

Novembro 10, 2008

chove, chove, chove. Do terminal, eu vejo três chuvas:

  • a de fora, fininha, que eu nao causei e nunca vou causar.
  • a meio de fora e meio de dentro, que eu seguro pra que nao transborde os olhos.
  • a de dentro, que já fez até enchente.

- enchanté.

com 10 pedras na mao.

Novembro 7, 2008

- Minhas asinhas nao gostam dos ventos daqui.
- Como assim, com os ventos daqui?
- É só eu voar por aqui e elas começam a doer.
- Ahn.

Quando eu quero ser objetivo, sai uma frase subjetiva e vice-versa.
Ó céus.

Aula 1.

Novembro 7, 2008

Descobri recentemente como se transportar de um lugar ao outro sem desfazer ou modificar matéria.

Antes de tudo, deve-se conhecer muito bem o lugar desejado. É preciso saber qual é o sabor, quais sao os ângulos, as cores, quais as distâncias todas. Deve-se lembrar também das pessoas que o freqüentavam ao mesmo tempo que você.

Agora é fechar os olhos e manter o endereço em mente. Quando eu digo em mente, é se concentrar o suficiente pra que a imagem apareça na parede dos olhos, como antes quando você esteve lá; por isso é sempre bom prestar atençao a tudo isso quando se anda por aí.
Voltando ao que interessa, só falta a parte mais difícil: além de projetar a imagem, é preciso lembrar do som ambiente e dos cheiros.

Acho que era disso que a Rowling queria dizer quando usou o verbo “aparatar”.

É engraçado constatar o quanto o sempre de algumas pessoas é efêmero. Pode-ser dizer que dura o tempo de uma virada de costas, um mês sem dar as caras.
Quem diz sempre nao percebeu que a amizade, o amor, o companheirismo a que se refere acabou há muito tempo, que perdeu a razao de ser no mesmo dia em que perdeu a confiança.

Me irrita, além disso, o excesso de “Eu te amo” e de “saudades”.
Essas sao usadas à torto e à direita, sem que se pense na profundidade delas. Ora cazzo, um Eu te amo resume tudo quanto é sentimento em 3 palavras e 7 letras. E saudade junta tudo isso e ainda adiciona passado, ausência, falta e vontade.

O Auréliao bem que tentou, mas nao deu; só o filho dele conseguiu o que eu chamaria de esboço de definiçao: Saudade engole a gente, saudade engole a gente, menina.